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Muito boa essa matéria do Estadão, mostra que a culpa não foi do policial "a" ou "b", mas sim do Governo que não treina e prepara os policiais para as ruas.
Venho repetindo isso aqui, política de segurança não é só UPP e propaganda na Globo.
Enquanto n o policial não for valorizado, passando a receber um salário digno para que ele não precise fazer mais bicos, e tenha treinamento adequado, o povo continuará pagando a conta.
Valorizar o policial, é respeitar e proteger a sociedade.
Reprodução do jornal Estado de São Paulo on line
RIO - Os tiros que perfuraram, de fora para dentro, a lataria de um ônibus com cerca de 20 reféns em sequestro na última terça-feira, no Rio, indicam despreparo do policial comum, segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil. Para o cientista político João Trajano Sento Sé, pesquisador do Laboratório de Análises da Violência da UERJ, a reação de disparar contra o ônibus evidencia que os policiais que fazem o policiamento nas ruas não estão prontos para situações inesperadas e reagem de maneiras que podem ser desastrosas.
"A polícia que faz o policiamento ostensivo tem que estar preparada para responder as situações que vai enfrentar, que aparecem de formas inesperadas", diz. "Acho que foi um golpe de sorte não terem ocorrido mortes por enquanto."
Tanto o comandante-geral da Polícia Militar (PM), Mário Sérgio Duarte, quanto o secretário estadual de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, admitiram na quarta-feira que os tiros foram um erro e podem ter colocado em risco a vida de passageiros, mas ressaltaram que a ação possibilitou o resgate dos reféns.
Para Paulo Storani, ex-comandante do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e especialista em segurança pública, a reação com tiros reflete falta de treinamento da polícia para lidar com situações limite e tomar decisões sob pressão.
"Eles são orientados a não tomar esse tipo de atitude, mas situações limite acabam gerando comportamentos limite. Para diminuir o erro, é preciso treiná-los para que saibam decidir com qualidade mesmo sob pressão", afirma.
Em um momento de maior confiança da população na polícia graças às Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) em favelas, Storani lamenta que não se promova uma reforma mais profunda na instituição, mexendo em suas "raízes".
"Não se vê vontade política para promover essa transformação", afirma.
Os especialistas concordam que não basta investir no treinamento do Bope, especializado neste tipo de operação, para evitar episódios como este.
"Não adianta mudar só o Bope. Tem que mudar a polícia", diz Storani. "Porque o primeiro policial que atende uma situação como essa é o policial de rua. É ele quem está lá na primeira instância, que identifica o problema, aciona os meios necessários, faz o isolamento da área."
"Num episódio como este, fica claro que as figuras que estão na rua são preparadas para reagir a situações desse jeito, com tiros", afirma. "Os caras não são doutrinados para ter em primeiro lugar a segurança das pessoas. O foco é enfrentar e pegar o bandido."
Para Storani, o episódio indica que a PM ainda tem uma cultura de confronto - como policiais teriam demonstrando em julho, ao intervir em outro assalto a ônibus no Centro que resultou em um tiroteio que deixou cinco feridos.
"Depois de 30 anos de políticas públicas equivocadas, criou-se uma cultura perversa de enfrentamento", afirma Storani.
"O policial que está operacional é o que troca tiro. Não precisa entender de direitos humanos, basta ter coragem de apertar o gatilho."